(dis)simula(n)do

Por vezes dou por mim a pensar que o meu momento para sonhar acabou lá trás, mesmo antes de perceber que o poderia fazer.

Procuro obrigar-me a viver, simplesmente, uma realidade que não me preenche que me deixa completamente vazia e não consigo, apenas, fazer de conta que não sei sonhar, que não o quero fazer.
Sei que vivo mais na ilusão que na realidade conhecida, que vou levitando pela existência sem me prender a nada nem a ninguém, mas o que procuro não está aqui, não se revela em olhares vulgares, diários, frutos de rotina, encontros casuais.
Há momentos, em que a realidade se impõe e me derruba, esforço “inecessário”, já que não caminho com ela a meu lado, mas longe, cada vez mais longe.
Sei que estou perto de um abismo, sem retorno, sem salvação possível, mas recuso-me a vender meus sonhos, minha capacidade de sonhar por um pouco de calma, numa realidade que não me preenche, não me dá vida.


Ténue fronteira me separa de quem sou, porque, neste mundo, o ser não tem lugar, corrompidos que estamos pelo que parecemos, pelo que queremos parecer.

Palavra loucura, atravessa-se no meu caminho a cada passo que me afasta, um pouco mais, talvez demasiado rapidamente, da realidade que se constrói diariamente lá fora.
Sei que não pertenço aqui, nem a lado nenhum, sei que meu caminho está longe dos que atravesso e não consigo, ainda assim, parar, não consigo, simplesmente, admitir uma derrota que não procurei, que não quero, que as circunstâncias me querem impor e eu me recuso a aceitar.
Sei que nego o que fui construindo, e não faz sentido, sei que não, mas, ainda assim, a necessidade de me libertar é maior, porque estou cansada, de enganar, de me enganar, apenas, simplesmente, porque queria um sorriso, para dar, para mostrar, e nessa letargia me esqueci do que é, realmente, sorrir.

Um dia aconteceria, acordar, e perceber que vivi este jogo por demasiado tempo, que acreditei demasiado nas pessoas, no sentir, no viver que achava que era o certo, o correcto, o socialmente aceite. Um dia acordei e percebi que a rotina não me preenche, apenas me move, levemente, sem nunca me prender o suficiente como para me fazer esquecer quem sou de verdade, a minha essência que procurei corromper, com falsas palavras, com sentimentos que nunca existiram porque, por demasiado tempo, me iludi, desacreditei meus valores, meus sonhos, meus sentires.

Chegada a este ponto, pergunto a mim mesma que quero, que procuro, que me falta de tal forma que me limita a uma carência de viver, de sentir. A resposta conheço-a, talvez, demasiado bem. Falta-me um olhar, uma voz, simplesmente, que dê sentido aos meus dias, ao acordar, ao viver.
Não vivo o desespero de não encontrar, vivo, apenas, a certeza de não conseguir abdicar disso, de não conseguir minimizar, fazer desta busca algo trivial.

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Bate certo, talvez não, pensando bem, mas, aos poucos, sinto que me invade a inconstância de outros tempos que julgava já, ultrapassada. Confiei demasiado nisso, creio, ingenuamente, talvez.
Acreditei, genuinamente, que o tempo faria meu coração fechar-se, em vontade própria.
Contudo, o tempo prega-nos partidas e da mesma forma que nos convence que nos cura, causa-nos feridas mais profundas do que pensaríamos.
Iludi-me, todo este tempo, iludi-me, num jogo de esconde, em que eu era presa e predador, em que jogava contra mim, a meu favor. Um dia, simplesmente, o jogo terminou, da mesma forma que começara, sem aviso, nem contemplações.
É irónico, olhar e ver, realmente, aquilo em que me transformei, um sorriso falso, um viver de faz-de-conta, e perceber que o tempo não me vai devolver o que perdi, o que deixei que se perdesse.
Agora?!
Pergunta estranha, esta, que ecoa a cada passo. Sempre disse viver o momento, sem passado nem futuro, apenas presente e a verdade é que não compreendo o que significa este agora, este momento, exacto, real, incessante.
Por vezes, sinto que sou eu e mais alguém, porque uma pessoa só não é assim, não tem tanta coisa a dizer a si mesma, suspeito.
Surge-me a sugestão de que caminho num limbo de loucura, um momento, lúcida, outro, na penumbra. Hoje, sinceramente, não consigo discernir em qual momento sou eu, verdadeiramente, se lucidez, ou nublosa.

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Esta voz que bate cá dentro, numa melodia inconstante, é surda, completamente surda, porque apenas, fala e fala, atormentando, mas não me ouve, não me dá respostas, apenas enuncia as mesmas perguntas uma e outra vez, como se essa fosse apenas a sua função.
Este olhar que contempla o mundo é cego, indubitavelmente cego, porque olha, incessantemente, mas não vê, não consegue discernir mais além do imediato, do dia atrás da noite, da sucessão de minutos. Não consegue parar e perceber o que se revela por detrás deste falso cenário em que me movo, limita-se a aguardar que um dia desapareça de cena e tudo se lhe apresente límpido e constante, não procura rasgar, apagar, destruir essas pinceladas que constróem uma realidade inexistente.

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um obrigado ao "gajo da concorrência" por ter a paciência de me aturar, em horário laboral, as minhas neuras "à l'e-mail"!!!






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2 sussurrando:

Mali disse...

Dizem que o tempo tudo cura, tudo resolve... nada mais do que palavras proferidas para nos enganarmos a nós mesmos.
Com o tempo crescemos, amadurecemos, podemos até esquecer mágoas,é um facto. Mas com isso cresce e amadurece também a vontade (muitas vezes necessidade) de partilhar o nosso tempo com alguém. A vida pode ser cheia e parecer-nos completa, mas há sempre um vazio que sopra e turba a visão do Norte a seguir...

(cada vez gosto mais do que escreves, amiga. preferia que as palavras foram mais alegres, mas espelham bem a pessoa pura que és)

beijos

emn disse...

O tempo.... estou a precisar dele para me curar.

Saudades da prima.

Beijo meu em ti linda.
(como vai a casinha???)